Sonntag, 28. November 2010

o terceiro espaço sociológico é no fim do mundo à esquerda

Três portuguesas numa noite fria, mas ainda decentemente fria, no coração da Europa, sem música à altura.
Uma a gostar desta vida, outra da outra vida, e uma terceira sem vida a inventar que tem uma. Diz-se que Sankt Pölten é no fim do mundo, mas não é. Alarga-se o Índico uns sete metros, mas tudo continua perto. Só o terceiro espaço da sociologia continua por traçar.
Identidade cultural, emigração e o terceiro espaço que ocupamos e preenchemos sem saber como.
Já não somos o que fomos, não somos o onde estamos, não seremos mais o que ficou para os outros. Inventamos um espaço à nossa medida, envolto em montranhas ou ondas, em aldeias a armar em mundos, impérios desfeitos ou sonhados. Um terceiro espaço sociológico não é nem o sítio onde vivemos, nem o sítio onde trabalhamos, é o que sobra. Curiosamente, a emigração constroi também um terceiro espaço linguístico, ainda mais étero que o outro, bem mais emocional, muito menos delineado. Palavras e frases transportas para outra língua, vividas com outro sentimento, usadas de acordo com novas vivências. Passagens muito mais benjaminianas do que o Walterzinho alguma vez sonhou.
Resumindo, a matemática continua longe de todas as realidades sentidas e o espaço de intersecção dos conjuntos não é na vida o que pertence simultâneamente aos dois conjuntos. É só virar na esquina!
Há um espaço, no fim do mundo à esquerda, bem no meio de um coração emigrante, que está vazio de conteúdo, vazio de simultâneidade, vazio.
Uma das três portuguesas, a que vive sem vida, aprendeu a muito custo que a terceira dimensão não existe. O volume não existe, o peso não existe, a distância não ocupa espaço. A vida é um filme, uma foto, simplesmente bidimensional. Sem mariquices.
E a sociologia é uma treta.


Links relacionados:
{a, b, c, d, e} ∩ {b, c, d} = {b, c, d }
http://www.zunftwissen.org/de/index.php/Dritte_Orte
http://conferencias.ulusofona.pt/index.php/sopcom_iberico/sopcom_iberico09/paper/viewFile/312/292

Mittwoch, 24. November 2010

Dienstag, 23. November 2010

Herberto Helder, OFÍCIO CANTANTE

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
...ainda que doa o mundo,
a alegria
Herberto Helder, OFÍCIO CANTANTE
A razão humana tem este destino singular, numa parte dos seus conhecimentos, de sucumbir ao peso de certas questões que não pode evitar. Com efeito, tais questões impõem-se à razão devido à sua mesma natureza, mas ela não pode responder-lhes porque de todo ultrapassam a sua capacidade.
I
mmanuel Kant, in 'Prolegómenos'


A sucumbir, também eu, ao peso de certas questões viro-me para aqui. É mesmo aquela história da pescadinha de rabo na boca.
E se para Kant o caminho adiante era a metafísica, eu não sei onde pegar na metafísica para deixar de ser pescada. Vou, mas vou como e quando? E se tudo isto ultrapassa a minha capacidade entrego a Deus? Que devo fazer? Na aula revisitada do Nuno Ferro questionava ele "devo perguntar o que devo fazer?" 
Pois não sei.