Montag, 28. Februar 2011

necro 4



Continuam a morrer pessoas que não têm nada a ver com a minha vida e que, ainda assim, ocupam nela um espaço maior do que o imaginado. Uma mulher de quem eu não sei nada, num momento universal, universalizado. E uma ponte sentimental e obsoleta, entre mim e ela, feita de sonhos e música.

Esta excelente foto de Dylan e Suze Rotolo é um zoom inacreditável do que durante anos infindáveis eu quis ter na minha vida. Não, não estou a exagerar. A luz maravilhosa do branco no preto, aquelas almofadas lá atrás, o sorriso aberto, a cumplicidade e um dylan para abraçar ;)
Suze Rotolo faleceu hoje. E teve direito a notícia de jornal, por ter "andado" com Dylan durante uns 4 anos da sua juventude (dos 67 que viveu). Não que tivesse desejado ser famosa, embora no fim quase se tenha rendido às evidências, de ter sido apenas isso o que interessou ao mundo sobre ela.
Entre nós houve uma ponte, embora ela nem quisesse ou pudesse saber disso. Porque me lembro de, em tempos idos, repetidamente olhar para a foto do album "The freewheelin'" e ter imaginado o que está acima: o sorriso aberto, a cumplicidade, o dylan para levar de braço dado ;)
[enfim, já estive a 15 metros do Dylan, quase que teria dado para lhe dar a mão.]

Agora, também já estou rendida às evidências de que uma foto que resume o meu exagerado sonho e foi tirada antes de eu ter nascido, vale o que vale: a excelente música do vinil - porque afinal é o plástico que vive 500 anos.

Sonntag, 27. Februar 2011




fechei os olhos e apaguei as margens.
o rio, hoje, estava um mar.

Dienstag, 22. Februar 2011

fosga-se

Eu a caminho de casa, de passo apressado, exigido pelos 8 graus negativos. A meu lado um rapaz (digo eu, porque tinha menos de 30 anos) a falar ao telemóvel (em árabe?). De trás vem o comentário, dito com a certeza de que te ouvem e aceitam: "ab in die Heimat!". Qualquer coisa como "vai para a tua terra".

Dou-me conta do mundo no espaço de um segundo.
Somos todos árabes, africanos, no pior dos casos até ambas as coisas...

Olho para trás, já nas tintas para o frio, com o olhar de leoa mal disposta (nem é por ontem, mas sim pelo que acabo de ouvir). Digo entre-dentes um "fosga-se" alemão, num tom tal de desafio, que o velho, de gorro russo, sobrolho húngaro, gordura checa e parvoíce austríaca, engole com respeito.

Raios partam estes gajos.
Suponho que rassismo tem a ver com um sentimento de superioridade. Mas isto aqui é medo puro. Medo de um gajo que vai a falar ao telefone, medo de não estar a perceber as tricas, medo de ser atirado para a própria ignorância nos segundos em que passam por ti a falar como tu nunca falarás, porque não sabes a língua. Medo de gritar de medo e preferir rosnar.
Raios partam estes gajos.
Não é isto que EU quero que faça parte da minha vida.
Decididamente.

Montag, 21. Februar 2011

Sudão, foto de Kevin Carter, 1993
 
Esta notícia de hoje deixou-me estranhamente confusa.
Faria eu tal foto?
Enxotaria o abutre a seguir? ou antes?
Suicidar-me-ia por ganhar um prémio com ela? ou apesar dele?
Chamaria hoje de "abutre" ao fotógrafo de 1993? ou tê-lo-ei feito na altura e já não me lembro?
Ou sequer achei a foto excelente pelo que apresenta e nem pensei no assunto? Voltaria um dia a pensar nisto tudo, como fez o jornal espanhol, e iria (como ele) à procura do miúdo da foto?
E trata-se de um documento, de fotojornalismo? pode dizer-se que é uma bela foto?

Como disse: estou estranhamente confusa.
Não sei que sentir, para que lado me virar, de quem ter mais pena, se devo sequer sentir pena.
Não é o silêncio ante o horror que acaba com ele.
Morreram todos. O bébé, o fotógrafo e, certamente, o abutre.
E o horror continua.

Donnerstag, 10. Februar 2011

Necro 3


Outro que faria ontem 80 anos era Dean. James Dean.
Ok. Já mandava o Bernhard às urtigas.
Entre a real capacidade de ser incapaz [do outro] e esta belíssima incapacidade de ser capaz, tenho as minhas dúvidas existenciais de quarta-feira à noite mais que resolvidas.
Gajas!

Necro 2

Thomas Bernhard faria hoje 80 anos (quer dizer, ontem, porque já passa da meia noite, mas enfim...).
Não sei se faz sentido estender aniversários em vida a comemorações do que podia ter sido se ainda fosse caso de se viver, sobretudo sendo essas comemorações levadas a cabo por pessoas que não nos amaram então, porque simplesmente não faziam parte do nosso mundo... mas pronto, faria 80 anos.
E eu, se me cruzasse agora com este senhor numa rua de Viena, acho que era bem capaz de me apaixonar. E esta minha sensação de saudade apaixonada comove-me.
Mas que sentido faz pensar com saudade numa pessoa que nunca vimos e pouco lemos?
Porque, do que sei, Bernhard é a minha Praça dos Heróis - enorme, aberta, e palco de todas as imbecilidades. O distanciamento dele para com os de cá é a minha distância para com este país, o seu tom seco a minha vontade de secura ... e a capacidade genial que ele tinha, de do alto do seu imenso aborrecimento e enorme incapacidade física de lidar com a vida de treta de todos nós, não se deixar seduzir por ninharias terrenas, essa capacidade de ser incapaz é o meu maior desejo actual. Mais do que apaixonar-me por ele, acho que queria mesmo era um sopro do seu desinteresse ante a funcionalidade exigida pelos que nos rodeiam.

Necro 1


Maria Altmann morreu há 2 dias.
Quem? A sobrinha da Adele do Klimt.  Um dos mais belos quadros dele, dos mais dourados quadros que eu já vi, dos quadros que mais barulho fez neste desterro - porque simbolizou a restituição de obras de arte "anexadas" durante a 2ª GG por este país, onde ninguém tem culpa de nada.
O estranho nesta morte foi a notícia que li sobre ela terminar com um comentário simples. Se a restituição dos quadros de Klimt (devolveram-lhe 5) tinha sido o melhor dia da vida dela, Maria, sobrinha de Adele? Que não. "Quando o meu marido me perguntou se queria casar com ele, quando o meu filho mais velho nasceu, e quando, ao nascer o terceiro filho me disseram "It's a girl!" - esses sim, foram os melhores dias da minha vida!".
Não sei se a pergunta foi feita por um jornalista austríaco, mas é bem provável.
Quais são então os dias mais felizes? Aqueles em que nos devolvem o que nos podia ou devia pertencer? Não. Aqueles em que vivemos mais intensamente. Os dias felizes são os dias que não nos pertencem, que não penduramos na parede, que não foram devolvidos.

Que fazer então, Estela, com todos estes dias anexados por outros ?