Conheço uma dançarina que vem do Haiti. Dança vodoo cheia de encanto e energia. Uma mulher forte com um olhar que eu nunca soube interpretar. Passados tantos dias sobre o terramoto continua sem saber se a mãe está viva. O primo só prometeu ir à procura dela em troca de dinheiro. Continuo sem saber interpretar o olhar dela.
Mas sei que vidas difíceis não perdem o baço olhar e é isso que trespassa de vez em quando. Apesar da dança.
É estranho ter a sorte ou o azar de se nascer aqui ou ali. Não há nada naquilo que somos que seja menos autodeterminado, creio. E, infelizmente, é o factor mais determinante das nossas vidas.
Os jornais estão cheios de imagens. Fotografias das maiores desgraças deste mundo. Como o terramoto no Haiti há 5 dias. Li ESTA notícia já à beira do limite. Tenho cada vez menos capacidade de aceitação ante tanta desgraça. Aguento cada vez menos. Lembro-me dos que se atiraram das torres em NY em tempo real, virava e revirava páginas com imagens horrendas do tsunami porque não conseguia acreditar. Mas nos últimos tempos já não aguento mais. Leio esta notícia e não preciso das fotografias para nada. Vejo o homem e as moscas e ainda que nunca tenha sentido a pestilência de carne apodrecida nos passeios da minha vida, julgo conseguir imaginá-la.
As fotografias não têm cheiro, nem fazem barulho.
Há uma magia numa imagem parada que o melhor filme não repete.
Mas mesmo sem cheiro, sem barulho, sem movimento, a minha cabeça está cheia de fotografias. E os meus olhos já muito embaciados.
Dienstag, 19. Januar 2010
Mittwoch, 13. Januar 2010
Dienstag, 12. Januar 2010
Montag, 11. Januar 2010
austri-dade
provavelmente ainda vejo e sinto a amizade como aquele amor à verdade que tanto me entusiasmava antes. amar a verdade, ser verdadeiro, amar o ser verdadeiro, ser verdadeiro no amar, sei lá eu.
fazer amigos pela vida fora é uma espécie de album de verdades.
os amigos são bocados de vida vivida, verdadeiramente acontecida, sofrida, esgotada em gargalhadas e abraços, com gritaria, cervejas e muitos cafés pelo meio. ou até um bocadinho mais que isso tudo.
mas, a partir de uma certa altura a vida não se dá tão bem com as verdades. tem de se ganhar dinheiro, ir ao supermercado, aproveitar os minutos esticados na casa de banho para ler - com calma e verdadeira solidão - umas páginas interessantes.
e a juntar à vida vem a distância.
tenho quase 20 anos de austri-dade - sim, leram bem.
as montanhas daqui, que fazem estas pessoas como o mar me fez a mim, não se padecem com verdades. não se vê além de nada, subir ao cume implica depois descer tudo outravez. estar lá em cima pode culminar com o azar de ter as nuvens todas abaixo do nível dos olhos. um nevoeiro intenso, que se estende ao passar dos dias. dias austeros portanto.
amigos que não se metem na vida de ninguém, que querem contas divididas ao centavo no café e não levam ninguém a casa se não ficar mesmo, mesmo em caminho.
portanto, não posso contar com os de lá, nem com os de cá.
desta vez, longe de todos os abraços portugueses, que sempre chegam com atraso quase imperdoável e longe de todas as exigências austríacas, mentirosas e mázinhas, estou decidida a levar agora a cabo o que comecei hà anos: ser verdadeira. amar mais ainda a verdade, ser ainda mais verdadeira no amar.
o aristóteles que se lixe.
ou vai ou racha.
fazer amigos pela vida fora é uma espécie de album de verdades.
os amigos são bocados de vida vivida, verdadeiramente acontecida, sofrida, esgotada em gargalhadas e abraços, com gritaria, cervejas e muitos cafés pelo meio. ou até um bocadinho mais que isso tudo.
mas, a partir de uma certa altura a vida não se dá tão bem com as verdades. tem de se ganhar dinheiro, ir ao supermercado, aproveitar os minutos esticados na casa de banho para ler - com calma e verdadeira solidão - umas páginas interessantes.
e a juntar à vida vem a distância.
tenho quase 20 anos de austri-dade - sim, leram bem.
as montanhas daqui, que fazem estas pessoas como o mar me fez a mim, não se padecem com verdades. não se vê além de nada, subir ao cume implica depois descer tudo outravez. estar lá em cima pode culminar com o azar de ter as nuvens todas abaixo do nível dos olhos. um nevoeiro intenso, que se estende ao passar dos dias. dias austeros portanto.
amigos que não se metem na vida de ninguém, que querem contas divididas ao centavo no café e não levam ninguém a casa se não ficar mesmo, mesmo em caminho.
portanto, não posso contar com os de lá, nem com os de cá.
desta vez, longe de todos os abraços portugueses, que sempre chegam com atraso quase imperdoável e longe de todas as exigências austríacas, mentirosas e mázinhas, estou decidida a levar agora a cabo o que comecei hà anos: ser verdadeira. amar mais ainda a verdade, ser ainda mais verdadeira no amar.
o aristóteles que se lixe.
ou vai ou racha.
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estado de espírito
Montag, 4. Januar 2010
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