Conheço uma dançarina que vem do Haiti. Dança vodoo cheia de encanto e energia. Uma mulher forte com um olhar que eu nunca soube interpretar. Passados tantos dias sobre o terramoto continua sem saber se a mãe está viva. O primo só prometeu ir à procura dela em troca de dinheiro. Continuo sem saber interpretar o olhar dela.
Mas sei que vidas difíceis não perdem o baço olhar e é isso que trespassa de vez em quando. Apesar da dança.
É estranho ter a sorte ou o azar de se nascer aqui ou ali. Não há nada naquilo que somos que seja menos autodeterminado, creio. E, infelizmente, é o factor mais determinante das nossas vidas.
Os jornais estão cheios de imagens. Fotografias das maiores desgraças deste mundo. Como o terramoto no Haiti há 5 dias. Li ESTA notícia já à beira do limite. Tenho cada vez menos capacidade de aceitação ante tanta desgraça. Aguento cada vez menos. Lembro-me dos que se atiraram das torres em NY em tempo real, virava e revirava páginas com imagens horrendas do tsunami porque não conseguia acreditar. Mas nos últimos tempos já não aguento mais. Leio esta notícia e não preciso das fotografias para nada. Vejo o homem e as moscas e ainda que nunca tenha sentido a pestilência de carne apodrecida nos passeios da minha vida, julgo conseguir imaginá-la.
As fotografias não têm cheiro, nem fazem barulho.
Há uma magia numa imagem parada que o melhor filme não repete.
Mas mesmo sem cheiro, sem barulho, sem movimento, a minha cabeça está cheia de fotografias. E os meus olhos já muito embaciados.
Dienstag, 19. Januar 2010
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2 Kommentare:
Bonito e comovente texto.
JR
obrigada.
e aqui um link para vê-la dançar
http://www.youtube.com/watch?v=aOB6o_FJgL8
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