provavelmente ainda vejo e sinto a amizade como aquele amor à verdade que tanto me entusiasmava antes. amar a verdade, ser verdadeiro, amar o ser verdadeiro, ser verdadeiro no amar, sei lá eu.
fazer amigos pela vida fora é uma espécie de album de verdades.
os amigos são bocados de vida vivida, verdadeiramente acontecida, sofrida, esgotada em gargalhadas e abraços, com gritaria, cervejas e muitos cafés pelo meio. ou até um bocadinho mais que isso tudo.
mas, a partir de uma certa altura a vida não se dá tão bem com as verdades. tem de se ganhar dinheiro, ir ao supermercado, aproveitar os minutos esticados na casa de banho para ler - com calma e verdadeira solidão - umas páginas interessantes.
e a juntar à vida vem a distância.
tenho quase 20 anos de austri-dade - sim, leram bem.
as montanhas daqui, que fazem estas pessoas como o mar me fez a mim, não se padecem com verdades. não se vê além de nada, subir ao cume implica depois descer tudo outravez. estar lá em cima pode culminar com o azar de ter as nuvens todas abaixo do nível dos olhos. um nevoeiro intenso, que se estende ao passar dos dias. dias austeros portanto.
amigos que não se metem na vida de ninguém, que querem contas divididas ao centavo no café e não levam ninguém a casa se não ficar mesmo, mesmo em caminho.
portanto, não posso contar com os de lá, nem com os de cá.
desta vez, longe de todos os abraços portugueses, que sempre chegam com atraso quase imperdoável e longe de todas as exigências austríacas, mentirosas e mázinhas, estou decidida a levar agora a cabo o que comecei hà anos: ser verdadeira. amar mais ainda a verdade, ser ainda mais verdadeira no amar.
o aristóteles que se lixe.
ou vai ou racha.
Montag, 11. Januar 2010
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5 Kommentare:
:)
esse sorriso vale um abraço a tempo e horas.
Eu quando li o poste pensei que uma das coisas que mais aborrece é não poder ter contacto físico de proximidade com as pessoas que lemos assim, com este sentimento de amizade. Eu sinto que visito certos blogues como se fosse 'muito cá de casa', mas depois há sempre qualquer coisa que falta. Mas na verdade talvez não, a Estela sentiu o abraço, não é assim?
Olha aí, mas quem te manda andar metida com essa gente? Mais vale uma tarde na costa da caparica do que uma semana no Tirol a cantar olaré-li-ló-li-ló.
Então não sabes que o que deu cabo da cabeça do Nietzsche, para além da sífilis, foi o ar demasiado puro da montanha?
Só não percebo é que culpa tem o Aristóteles disso? Ele alguma vez passou férias na Áustria ou viveu lá?
Olha, deixa-te mas é de merdas e dá mas é cá um abraço!
JR
@José
bom, até porque passaste aqui tão pertinho e não tocaste à campaínha;)
depois de um jantar em torres vedras, podes contar com outro em viena :)
sinto muita falta física dos meus amigos. embora muitos deles achem - e se calhar com mais razão que eu desejaria - que eu nunca digo nada etc.
abraços assim, como os que estamos nós a dar, são bons, reconfortantes, mas nada físicos, infelizmente.
melhores dias virão, tento eu convercer-me.
@José Ricardo
esse teu comentário leu-se como se estivesses no sofá cá de casa a dar-me uns safanões ;)
quase tão físico como os abraços que me fazem falta. obrigada :)
o aristóteles nunca passou por aqui, mas tinha a mania de tentar pôr ordem em tudo. falava da amizade entre iguais e desiguais, blablabla... era a isso que me referia.
quanto ao tirol: um dia ainda hei-de ir a seefeld, para tentar "ver" o que levou o husserl a passar-se.
depois disso acho que poderei fazer as malas, para um lugar melhor.
quem me mandou andar metida com esta gente? o parvo do eros, naturalmente.
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