Sonntag, 9. Januar 2011

o eterno retorno em versão pescadinha-de-rabo-na-boca....

"Imagine duas mulheres, uma ao lado da outra, na praia de Copacabana. Uma de tanga, a outra de burka. Será que vivem no mesmo tempo? de acordo com o calendário, sim. Mas o tempo tem ainda uma dimensão cultural, espiritual."
          Antonio Tabucchi, entrevista a uma revista austríaca.

Leio isto e irrito-me.
Qual é o pensamento seguinte?
A dimensão cultural e / ou espiritual do tempo pode ser desprovida de valores? Quer ele dizer-me que uma está mais à frente no tempo que a outra? e se sim, qual delas?
Ou são dimensões paralelas? e se sim, para quê preocuparmo-nos com a determinação disso mesmo? Onde é que a tanga e a burka têm alguma relevância?

Eu quero um tempo em que se olha para as duas mulheres em Copacabana e se vêm duas mulheres em Copacabana. Mais, eu quero um tempo, em que se olha além delas, e se vê o mar.



ps - o Sr. Tabucchi está a ficar velho, ou foi sempre assim e eu não tinha dado por isso? Eita! esta pergunta faz-me pensar que o Sr. Tabucchi está na praia de Copacabana, de tanga, ao meu lado...

6 Kommentare:

José Borges hat gesagt…

Eu gosto do Tabucchi. Escreve bem. O resto não sei bem, mas não é assim tão parvo. No outro di vi um filme 'Dos homens e dos deuses' e a certa altura um homem reclama que quando na Argélia as jovens eram assassinadas se não usassem o lenço, em França faziam questao de usar por usarem que era da sua vontade. Não era, é apenas uma maneira de se afirmarem negativamente num lugar onde nao o conseguem fazer positivamente. Nao? Se houvesse apenas uma dimensao espiritual, nao haveria mulheres nao muçulmanas a usar a burqa e o chador?

estela hat gesagt…

o tempo zé, é um colar de pérolas, com um antes e um depois... qual delas seria o antes e qual o depois?
acreidto que falar na dimensão cultural soa bem, mas também esta está por nós condicionada ao antes e ao depois... e na verdade estas dimensões são belas linhas paralelas que se encontram no infinito ;)

José Borges hat gesagt…

se o tempo for um colar de pérolas não sei qual delas é o antes e o depois. mas só se o tempo for um colar de pérolas.

José Ricardo Costa hat gesagt…

Ai Estelazinha, Estelazinha. Não me venhas com relativismos e multiculturalismos. Já porventura experimentaste andar de burqa? E não poderes sair de casa, nem poderes aprender a ler e a escrever pois ísso é para homens, nem a poderes ser vista por um médico pois é sacrilégio, morrendo dias depois com uma inofensiva infecção? Olha, fazemos assim: quando um dia emigrares para o Afeganistão, Paquistão ou Arábia Saudita eu depois vou lá fazer-te uma visita, pode ser?

estela hat gesagt…

@ Zé Borges
digamos que o colar tem um fecho, começa num lado e acaba noutro ;)

estela hat gesagt…

@ Zé Ricardo
não me venhas com as desgraçadas das mulheres e que tudo aquilo é falta de civilização. não é. é meramente questão de poder, de força, de luta, de revolta. que me venham cruxificar por este comentário, mas Afganistão, Paquistão e/ou Arábia Saudita não estão menos desenvolvidos, menos à frente, menos o que quer que seja (e se o fossem, quem sou eu para os obrigar a ter o mesmo ritmo que eu? a querer exactamente o mesmo que eu?). Olha para o Irão dos anos 70 e para hoje. lutam como o caraças, sabem que tudo pode ser diferente e mesmo assim...
duas mulheres em copacabana, estando uma de tanga e uma de burka estão exactamente no mesmo tempo, na mesma dimensão, na mesma vida. são os meus valores, os teus valores e os valores de cada uma delas que podem dar um ar diferente à coisa. mas nem melhor nem pior, por favor, nem melhor nem pior!!! senão a da burka não estava em copacabana ao lado da de tanga, compreendes? ;)

as mulheres que se mexam, que lutem, que queimem a burka como as francesas queimaram os soutiens. mas só porque estas o fizeram nos anos 60, não quer dizer que sejam mais espertinhas. não são. tiveram mais sorte. e como dizia o pessoa: tens sorte se a sorte é dada.
beijos