Montag, 31. August 2009

fotografias cardiológicas


para quem, como eu, estudou turismo antes de chegar à filosofia e trabalhou em turismo antes de ir parar ao comércio justo, viajar e visitar outros lugares é um impulso irresistível, dá imenso prazer e está cheio de perigos. o pior deles: levar uma máquina fotográfica na mão exige imensa disciplina - durante toda a viagem.

a cada esquina, e na maioria dos rostos que se cruzam comigo, está uma miragem de vida pura, que existe sem porquê, independentemente de mim. às vezes, por quase não aguentar tanta realidade, desisto de guardar o momento, desisto da fotografia. e ao longo dos anos fui juntando cada vez mais imagens despegadas do mundo, dependuradas na minha alma, agarradas a mim, por ter sentido um sem número de insignificâncias irrepetíveis ao atravessar momentos não fotografados.
chamo-lhes herzensbilder, fotografias cardiológicas.
outras vezes, no mundo do diz-que-é-uma-espécie-de-turista, tento eu fazer parte da fotografia que faço. para me redimir. assim, estar a ver, ouvir e fotografar um grupo de 10 mariachis depois de ter dado uma vista de olhos pelas entranhas da alma mexicana, tornou-se um acto atemporal e uma forma estranha de "sim" à vida. uma foto feita cardiologia. uma imagem-coração.

uma fotografia ainda é para mim uma coisa inexplicavelmente mágica. não entendo como existe - apesar de já ter passado horas imensas a mergulhar papel em líquidos químicos às escuras. na verdade não sei como é possível tornar presente o momento ido e menos ainda como é possível olhar para este mariachi e começar a ouvi-lo!

é uma espécie de fenómeno puro :)

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was oben steht? ein kurzer text darüber, wie ein herzensbild eigentlich ein reines phänomen wird. übersetzung auf anfrage ;)

2 Kommentare:

José Ricardo Costa hat gesagt…

Gostei da ideia de "fenómeno puro" para além, claro, do texto no seu todo. É um fenómeno puro porque pára o movimento e, parando o movimento, pára o nosso olhar. Os laboratórios científicos não estão cheios de coisinhas congeladas para manter a sua pureza?

JR

estela hat gesagt…

sim, talvez... mas não é absolutamente incompreensível ter um papel na mão com a imagem exacta de um momento cuja existência está perdida para sempre?

enfim, penso naquela célebre frase ["beam me up, scott" ] e imagino que este mariachi se "beamou" para a minha fotografia.
outra explicação não tenho de momento.

aposto é na condescendência de husserl para comigo ;)