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| Sudão, foto de Kevin Carter, 1993 |
Esta notícia de hoje deixou-me estranhamente confusa.
Faria eu tal foto?
Enxotaria o abutre a seguir? ou antes?
Suicidar-me-ia por ganhar um prémio com ela? ou apesar dele?
Chamaria hoje de "abutre" ao fotógrafo de 1993? ou tê-lo-ei feito na altura e já não me lembro?
Ou sequer achei a foto excelente pelo que apresenta e nem pensei no assunto? Voltaria um dia a pensar nisto tudo, como fez o jornal espanhol, e iria (como ele) à procura do miúdo da foto?
E trata-se de um documento, de fotojornalismo? pode dizer-se que é uma bela foto?
Como disse: estou estranhamente confusa.
Não sei que sentir, para que lado me virar, de quem ter mais pena, se devo sequer sentir pena.
Não é o silêncio ante o horror que acaba com ele.
Morreram todos. O bébé, o fotógrafo e, certamente, o abutre.
E o horror continua.

6 Kommentare:
O horror não morre, permanece no limbo do planeta padrasto.
Esta fotografia constitui uma punhada no peito.
Eticamente reprovável porque se terá antecipado(?) a um gesto humanitário é, todavia, a denúncia de uma realidade que não pode ser camuflada.
Tenho publicado alguns postes sobre as crianças 'condenadas da terra' e confesso que hesitei antes de o fazer, mas acabei por decidir incomodar...
Este post lembrou-me um livro de Barthes que li, 'A câmara clara', onde descorria exatamente no que faz com que uma fotografia mexa connosco ou não.
Fala do 'studium' (espécie de encenação da foto, aquilo que vemos à primeira) e do 'punctum' ("O 'punctum' de uma fotografia é esse acaso que nela me fere (mas também me mortifica, me apunhala)", p.35.
Talvez seja por isto que esta imagem choque tanto, o tal 'punctum' é demasiado chocante e real.
Ora bem, isto tudo para dizer que não me parece que o fotógrafo pudesse ser criticado por ter dado a conhecer uma realidade infelizmente presenta na vida de muitos.
Estaríamos a confundir a missão de dar a conhecer com a missão de ajudar.
Fiquei a pensar até que ponto é legítimo interferir com o que se vê e documenta, sob pena de contaminar a verdade.
E o que será a verdade?
Agora, seria eu capaz de não fazer nada? Não sei, depende tanto do contexto em que as coisas acontecem.
@jrd
sim, denunciar, incomodar, sacudir as pessoas. mas isso mostra que tem o seu ponto de vista bem definido. E ainda bem. Já eu, continuo sem saber o que é que esta foto faz comigo. Entre o óbvio do horror, o olhar habituado, a fascinação pela fotografia em geral e a história de quem a fez, não sei para que lado do horror me hei-de virar.
@uma rapariga simples
pois é. também eu acho absolutamente legítimo documentar a verdade. contudo não sei se é isso que me choca. vou mais pela última pergunta do teu comentário - e, embora não me agrade nada, não consigo dissociar o que eu faria, do que o que aquele rapaz (que terá morrido por ter passado por tanta verdade real) devia fazer. eu sei, é uma parvoíce enorme. até porque também eu não saberia o que faria.
pelo menos o teu comentário leva-me a pensar de mim para mim que: ainda bem que as minha missão não é esta!
Se fosse eu faria assim: tirava a fotografia pois a fotografia merece ser tirada. Depois enxotava o abutre. Depois, pegava na criança e levava-a para um lugar seguro. Depois iria à minha vida, ou seja, não me suicidaria, para poder continuar a tirar fotografias iguais a esta e a pegar em crianças para as levar para lugares mais seguros.
Obrigada Zé! É isso mesmo que eu gostava de conseguir ao olhar para esta foto.
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