"Imagine duas mulheres, uma ao lado da outra, na praia de Copacabana. Uma de tanga, a outra de burka. Será que vivem no mesmo tempo? de acordo com o calendário, sim. Mas o tempo tem ainda uma dimensão cultural, espiritual."
Antonio Tabucchi, entrevista a uma revista austríaca.
Leio isto e irrito-me.
Qual é o pensamento seguinte?
A dimensão cultural e / ou espiritual do tempo pode ser desprovida de valores? Quer ele dizer-me que uma está mais à frente no tempo que a outra? e se sim, qual delas?
Ou são dimensões paralelas? e se sim, para quê preocuparmo-nos com a determinação disso mesmo? Onde é que a tanga e a burka têm alguma relevância?
Eu quero um tempo em que se olha para as duas mulheres em Copacabana e se vêm duas mulheres em Copacabana. Mais, eu quero um tempo, em que se olha além delas, e se vê o mar.
ps - o Sr. Tabucchi está a ficar velho, ou foi sempre assim e eu não tinha dado por isso? Eita! esta pergunta faz-me pensar que o Sr. Tabucchi está na praia de Copacabana, de tanga, ao meu lado...
Lyrics of "Somewhere There Is A Poem" by Gina Loring
Somewhere there is a poem
And I want to write this poem
I want to speak this poem
I want to feel this poem
I want to experience this poem
Cradle it in my arms
Feed it a good meal
And send it on its merry way
I want to sing this poem
“Amazing grace, how sweet the sound”
Somewhere there is a poem screaming
Get up, stand up
Stand up for your rights
Human beings, human beings
Beings being so
Caught up in the tangible material surface
Or that they never actually feel
Their touch is liquid and grazes right through
But misses the core
This poem whispers to me
And rocks me to sleep
And tells me stories of indigenous people
Diseased and tricked and slaughtered
And made to be extinct
But this ain’t no pterodactyl
Or tyrannosaurus rex blood flowing through my veins
I am a Creek American Indian
I exist
I am an African
I am an old Jewish woman muttering prayers in Yiddish
As my name is replaced with a number on my arm
I am a little Japanese girl
Staring in horror
As my village is bombed and burnt to the ground
I was born in India, but not to the right caste
So regardless of what I accomplish
I will always be a peasant
I died in Mexico three feet from the border
Gunned down by evil troops
Who shoot for a living
Who sacrifice their souls for
The man-made boundaries of these Americas
Somewhere, there is a poem somewhere
Dozing in subway stations
And flying high on a 405
And taking the L to Brooklyn
The 15 to Vegas
And the Marter through Atlanta
And cruising down a dark street in Oakland is a poem
This poem comes from somewhere deep
Somewhere where the angels sleep
Where pixies dance and mermaids weep
Where hymns are hummed
So God will keep us all in mind on Judgment Day
This poem warns, but does not sway
For what you do is up to you
Where you go and who you know
If you close up, or if you grow
Somewhere there is a poem about the insanity
Of war, Hiroshima, Hiroshima
Hero, hero, war hero
Hero-, hero-, heroin is
Crack cocaine is
The systematic genocide of my people
Brown skin behind bars
Locked up behind bars
Trapped behind bars
And slaves behind bars
Kept in lines behind bars
Counted behind bars
Bars, there are more bars
Selling alcohol on a single reservation in Oklahoma
Than in all of Ventura county, county
Counting me in ‘cause I’m down for the revolution
Which may not be televised
And may not get radio play
But it will be told through poetry
‘Cause somewhere there is a poem
This poem speaks to me and draws me in
Like an amusement park to a kid
I want to freak this poem and dream this poem
And share it with y’all
Hold up, shhhhh
I just did
Ontem, recostado no sofá lá da loja, um amigo, poeta vanguardista e homem de vida sofrida, contava-me que uma das suas mais belas e sentidas citações era uma frase atribuída a Romy Schneider. " Se eu, pelo menos tivesse podido sentir um pouco de felicidade na vida"...
De um momento para o outro o meu último post - de optimismo duvidoso - perdeu todo o sentido, estalou e esfumou-se... há imensas vidas que correm mal. Montões de pessoas que do princípio ao fim se debatem com adversidades, perdas, encruzilhadas danadas e difíceis, más escolhas, momentos horríveis, etc e tal, tudo lineal, como se a vida não se descuidasse um minuto sequer.
Qualquer coincidência boa pode ser apenas isso.
E se esta minha vida for mesmo aquela das imensas pessoas que por muitas razões não alcançam a felicidade?
Seria melhor eu saber isso agora, a 4 de Janeiro de 2011, com praí metade da vida atrás de mim, ou continuar a comer passas todos os anos como uma estúpida?
Precisei de 3 dias para me decidir, mas está feito: desta vez não há lista de propósitos, de objectivos, de desejos. O ano de 2011 está aí e eu não estou decidida a dizer-lhe o que quero que aconteça.
Não há nada que eu possa esperar do ano, que o ano me traga por ser o que espero.
Comi as passas, mas como sempre, perdi-me no meio das badaladas... não tenho 12 desejos, não faz sentido repeti-los e às tantas, à sétima ou oitava, dou comigo a saber que tudo não passa de uma invenção.
Suponho que é a minha própria falta de ânimo que desacredita as bruxarias. Ou um certo desencanto ante a verdade real deste mundo e o velho sonho do eterno retorno. Os mais espertos de nós, que sabem que o que volta vem diferente, chamam-lhe espiral ;)
Seja como for, esteja eu de branco ou não, salte as sete ondas ou vista roupa novinha em folha, o ano virá e será. Não sei onde estarei daqui a um ano e, sinceramente, não quero sequer escolher a estrada, o virar da esquina, a curva a dar a isto. A decisão maior está tomada, pelo que a vida sabe por onde ir e irá :)
É deixar que aconteça.
ps - vamos lá a ver quanto tempo eu aguento esta estranha forma de optimismo ;)
pps - o título do post é a minha versão da frase "Die gerade Linie ist gottlos" de Friedensreich Hundertwasser
Querido Pai Natal,
quando eu era menina, era o Menino Jesus que esvoaçava por entre as prendas e se escondia no pinheiro de luzes coloridas - que nunca eram tão lindas como as outras, que enfeitavam as árvores do Rossio, até onde a gente descia com o avô, para ver a magia do Natal acontecer.
Quando eu era menina, o vizinho do terceiro andar tocava à porta e deixava uma lembrança vinda de ti. A minha mãe, de uma doçura eterna, trocava com ele os pacotinhos coloridos, para que o Natal chegasse ao terceiro andar também. E mais além.
Não me lembro de escrever cartas ao Pai Natal.
Talvez por isso algumas das minhas prendas mais queridas tenham ido parar a outro lugar. Talvez.
Mas anos depois, os olhos dos meus filhos prendiam-se na árvore de Natal e as cartas ao Pai Natal passaram a ser colocadas na janela, umas atrás das outras, com recortes e desenhos, pedidos longos e desejos maravilhosos. Hoje há serões a escrever postais, e noites escondidas a embrulhar prendas. Os meus filhos sabem: o Pai Natal traz prendas a quem acredita nele. Para os outros, que não acreditam, são os pais e os amigos, os entes queridos, que enfeitam embrulhos cheios de boas ideias e intenções.
Cá em casa o Pai Natal traz presentes, leva presentes, deixa migalhas espalhadas pelo chão e, em dias de muito correrio, já demos com caracóis de anjos caídos num canto…
De quando em vez peço a Deus e ao mundo um ou outro presente.
Paz, Saúde e alegria, umas vezes mais para mim, outras mais para os outros.
Pedidos materiais não tenho. Gosto de livros e música, de viagens, de passeios, de boa comida e de estar com os meus amigos. A vida vai trazendo e levando esses presentes conforme calha. E está certo que assim seja.
Mas escrever ao Pai Natal e não pedir nada é muito estranho.
Por isso, tomo coragem, respiro fundo e peço:
Pai Natal, o que eu gostava mesmo era de um limpa-mágoas. Um limpa-mágoas é uma daquelas máquinas de teletransporte! Que teletransporta amigos… dizem até que pode mais… uma teletransportadora para os amores que me faltam, ou para que na próxima vez que a minha amiga Madalena faça um esparguete com cogumelos, eu magicamente receba um prato cheio, uma teletransportadora enorme, onde caiba o sofá para onde a Lena e os miúdos se atirarão quando me vierem visitar um dia. Uma geringonça capaz de levar-me ao cinema com a Bárbara para que tire férias dos miúdos por uma noite, ou que me permita ir jantar com o pessoal da escola sem grandes planos e gastos. Que em noites de céu limpo me deixe teletransportar o Zé para um passeio a pé, ou quando o tempo estiver mesmo mau, que eu possa limpar as mágoas da Aldina, as dores de cabeça do Guilherme ou a dor d'alma do Carlos. Um limpa-mágoas automático, onde os lenços de papel sejam como que velas do meu rio Tejo, que tanta falta me faz. Esta teletransportadora que te peço não é cor-de-rosa! Tem de ser da cor da vida que me falta. Da cor dos risos do liceu, da cor do sol esquinado nas colinas, da cor do mar ao entardecer, da cor das minhas saudades. E não acredito que funcione a pilhas, porque o mundo não está para essas coisas, mas prometo cuidar dela, usá-la, partilhá-la. Ser absolutamente teletransportada! Limpar mágoas.
Pai Natal, manda-me um limpa-mágoas que estou mesmo a precisar, um beamer de vida, de amizade, de carinho e amor. Uma máquina de fazer esticar a minha força.
Que venha desmontada e sem instruções, mas que chegue.
Obrigada.
Estela, 1967
Não queiras saber de mim
Esta noite não estou cá
Quando a tristeza bate
Pior do que eu não há
Fico fora de combate
Como se chegasse ao fim
Fico abaixo do tapete
Afundado no serrim
Não queiras saber de mim
Porque eu estou que não me entendo
Dança tu que eu fico assim
Hoje não me recomendo
Mas tu pões esse vestido
E voas até ao topo
E fumas do meu cigarro
E bebes do meu copo
Mas nem isso faz sentido
Só agrava o meu estado
Quanto mais brilha a tua luz
Mais eu fico apagado
Amanhã eu sei já passa
Mas agora estou assim
Hoje perdi toda a graça
Não queiras saber de mim
Dança tu que eu fico assim
Porque eu estou que não me entendo
Não queiras saber de mim
Hoje não me recomendo
Faz hoje 19 anos que vim para aqui onde estou.
Faz também 16 anos que a minha mãe morreu, não morrendo logo.
Normalmente este dia é passado em recolhimento mental, o mais longe de mim mesma quanto eu consigo estar, em 24 horas que no fundo não significam nada. Todos os dias são dias de acontecimentos. Não é por aí que vem mal ao mundo, salvo seja. Pelo menos é esse o esforço em que estão envoltos os dias 10 de todos os Dezembros, de há 20 anos para cá.
Hoje a coisa tem outro peso.
Daqui a 4 anos estarei a meio caminho.
Estarei tantos anos aqui como lá, aí.
E além do mais, daqui a 4 anos não quero estar aqui.
Conseguirei estar mais anos em casa do que fora dela?
É possível estar tantos anos noutro sítio e não ter como chamar-lhe nem lar nem pátria nem espaço próprio?
Porque é que os primeiros 24 marcam mais que os segundos?
Como gerir os 4 anos que faltam para lhes mudar o rumo de forma definitiva? Onde estarei no próximo dia 10 de Dezembro?
(é a primeira vez que me faço esta pergunta!)
E depois, as datas servem exactamente para quê?
Se servem para medir e pesar o que a elas está ligado são absolutamente desnecessárias. Essas coisas ou andam connosco sempre ou não andam, e não andando perdem serventia, perdem sentido, deixam de ser importantes. As datas do mundo são outra coisa. A Declaração dos Direitos Humanos é de 10 de Dezembro de 1948, neste mesmo dia, mas já em 1860 é pela primeira vez na história é concedido o voto às mulheres (no Wyoming, quem diria!) etc e tal, nada de especial também...
A verdade é que os dias não têm história.
Somos nós que temos história. A minha história junta neste dia todas as perdas e ganhos de tudo o que sou. Míseras 24 horas sem significado nenhum que me descontrolam. A minha independência começa no mesmo dia em que se torna dependente de outra coisa, o meu amor a crescer e a morrer ao mesmo tempo, ganhar e perder as pessoas quem em momentos diferentes eram as mais importantes, estar - ainda hoje - sem saber para que lado me virar, se para o 9 se para o 11. Etc. Mais uma vez: etc e tal.
E sim, olhar para a frente, não dar espaço à depressão, pensar positivo. Trálálá.
Um impasse. A história dos dias não é história. É um impasse.
Os dias sem história, agarrados uns aos outros pela nossa necessidade de nomear o mundo.
Quero que o mundo se esfarele!
A dor não tem nome nem história. Existe. Ou está lá ou não.
Hoje sim.
Hoje tive de começar com uma dose cavalar de cortisona para tentar evitar ficar com falhas auditivas para sempre. Tudo por causa daquela palerma otite. Enfim, coisas da vida, de gente a envelhecer.
Mas o interessante mesmo foi aquele curto momento de desespero ao escutar que uma parte de um dos meus sentidos pode ficar atrufiada para sempre.
Quando andava na escola contava-se, em jeito de anedota, que o mais importante dos sentidos, aquele que mais falta faz, não é o mais óbvio. À pergunta "Qual dos 5 sentidos é o mais importante para ti?" nós putos respondíamos quase sempre com os invariáveis 2: ver e ouvir... os mais sensíveis falavam do cheiro e do sabor e a maioria achava o tacto pouco interessante. E nós gajas fazíamos sempre um comentário suplementar e esplenderoso sobre a intuição feminina. Brincámos a isto horas a fio e a resposta final era: o tacto é o mais importante. Sem mãos não tocas em ninguém, não tocas em nada, não te vestes nem despes etc e tal, estás dependente de tudo e de todos. E o pasmo das caras do óbvio parecia dar razão a isto.
Hoje voltei a pensar nestas coisas.
De facto, mesmo havendo aparelhos auditivos invisíveis, muito cool e potentes, atravessou-se-me o sentimento da falta de música, da voz dos meus filhos, do som urbano, do meu Poço dos Negros cheio de música africana e retornados-para-lado-nenhum que encheu a minha infância. Não é o silêncio que assusta. O silêncio ocupa lugar. Poderá dar em loucura, mas está lá.
Ao contrário dele, a falta de som é uma perda irreparável.
Será que Jack Johnson soa ainda havaiano se o ouvir através daquele ouvido de silicone? Ou que os meus filhos são de repente mais bem comportados porque os oiço filtrados? Ou que as cidades passam a soar todas iguais, porque nenhum som as distingue? hmmmm
Hoje já foram 4 comprimidos de uma vez só, amanhã serão três, depois dois, depois um.
Simplesmente não me interessam as modernices da medicina.
Portugal está em 14º lugal na lista dos países que mais fazem pela defesa do clima. A Áustria é o 40º (quadrigésimo, sim!). Nos 3 primeiros lugares não está ninguém, porque ninguém faz o suficiente pelo clima ;))
Ao mesmo tempo que leio, mais à esquerda no mesmo jornal austríaco, na edição online, que a competência de leitura dos alunos austríacos (Pisa, versão actual) passou para o lugar 31 de 34 (só estão à frente dos turcos, dos chilenos e dos mexicanos - se calhar, contando os turcos que vivem na Áustria até estavam ao mesmo nível).
E o Público (também na edição online) comenta sorridente que a Universidade Nova passa a estar, juntamente com a Católica, entre as melhores escolas de negócios da Europa ;) claro que aqui está na posição 73 de 75, relativamente a escolas na Europa onde se ensina economia (e a posição da Nova é só referente a mestrados!)... ou seja, demasiada alegria, não?
Economia?
Bom, sempre podemos dizer que os austríacos nem sabem ler ;))
Agora nós somos parte integrante da elite capitalista da velha Europa, ohlala ;))
Enfim, e ainda me perguntam porque é que eu quero voltar para casa?
Por causa do mar, claro!
Esta coisa das fugas de informação que acabam por vir à tona onde e quando menos se espera anda de novo a dividir o mundo. Naqueles que precisam dos EUA, que gostam dos EUA, que dependem dos EUA, que, como os próprios EUA, ainda acreditam que são eles os donos do mundo - e o resto do pessoal, malta de esquerda, sem respeito, uma cambada criminosos que entregam tudo de mão beijada aos terroristas, põem vidas em perigo e apoiam aquele gajo, que é procurado pela interpol por violação.
Eu sou uma destas últimas.
Ainda não sei se concordo com a necessidade de divulgar tudo o que está a ser divulgado. Tudinho mesmo. Provalevmente não sei se concordo, porque metade do que lá está não me interessa. Não porque não tenha valor em si. Embora a lista dos locais a defender seja uma parvoíce óbvia e só prove o formato quadrado do cérebro americano... e o dos que acreditam que os terroristas podem tirar proveito de tal lista, claro.
Vi o video do Iraque (que coloco mais abaixo) e compreendo a necessidade absoluta de transparência - de acabar com as mentiras - sobretudo quando se tem a verdade em mãos. Mas tanto o Iraque como o Afganistão são palcos de guerras inventadas e todos sabemos isso, pelo que descobrir detalhes dessas invenções é simplesmente ter a prova do que se sabe.
Confio que os jornais/revista escolhidos - Guardian, el país, NYT, der Spiegel, Le Mond - estão a tratar os documentos com o cuidado que o jornalismo de investigação merece (cf texto do DN )
Por tudo isto, e admitindo que Assange corre o risco de pensar em si mesmo como sendo o Robin dos Bosques do novo século, não posso aceitar que porta-vozes de nações inteiras instiguem à sua morte sem serem chamados à razão.Cambada de cobardes!
Gente que não aguenta a realidade.
Nem quando inventou a mentira, nem agora, que tudo está à vista!
A dor causada por uma otite é conhecida. Difícil de aguentar.
Pelo que não acrescenta nada ao mundo haver continuamente alguém a passar por isso.
É uma dor aguda, cortante, desesperante.
Mas a vida tem imensas coisas assim.
Gente que se nos morre, que se nos vai, que se esvazia à nossa frente, no dia a dia.
Desgraças naturais em todos os cantos e esquinas.
Democracias fingidas, monarquias românticas, regimes maus.
Tudo a doer assim, de forma cortante e aguda a desesperar mortais que acreditam num mundo melhor.
Pelo que, esta dor que me azucrina não acrescenta nada às dores do mundo, e muito menos às minhas pessoais, pois não é a minha primeira otite - tive algumas delas em menina e não me deixaram saudades.
Se é esta otite que me faz ter mais respeito pela saúde? não.
Mais vontade de cuidar de mim? não.
Se engolir antibiótico como se morresse por uma gota de água me envergonha, tendo em conta o sofrimento que vai havendo no mundo? não.
Se os milhões de crianças que morrem diariamente sem assistência médica me ajudam a considerar a minha madrugada no hospital uma sorte desgraçada? de madrugada não. agora talvez.
Se o facto de o palerma do taxista não dar com a praça onde parecia estar a salvadora farmácia de serviço por nem sequer entender a língua do sistema de navegação, de algum modo me ajudou a compreender o ódio de morte que se tem a estrangeiros neste país? de madrugada sim, agora talvez não.
A verdade é que esta otite nem vem melhorar a minha capacidade auditiva, já de si habituada a tudo.
Não vem acrescentar nenhuma vivência aceitável à minha existência.
Nada!
É horrivel lidar com coisas que não servem para nada!
ah, se calhar era esta a lição de vida...
ok, agora a sério, é preciso levar uma lição da vida com tudo o que nos acontece?
Três portuguesas numa noite fria, mas ainda decentemente fria, no coração da Europa, sem música à altura.
Uma a gostar desta vida, outra da outra vida, e uma terceira sem vida a inventar que tem uma. Diz-se que Sankt Pölten é no fim do mundo, mas não é. Alarga-se o Índico uns sete metros, mas tudo continua perto. Só o terceiro espaço da sociologia continua por traçar.
Identidade cultural, emigração e o terceiro espaço que ocupamos e preenchemos sem saber como.
Já não somos o que fomos, não somos o onde estamos, não seremos mais o que ficou para os outros. Inventamos um espaço à nossa medida, envolto em montranhas ou ondas, em aldeias a armar em mundos, impérios desfeitos ou sonhados. Um terceiro espaço sociológico não é nem o sítio onde vivemos, nem o sítio onde trabalhamos, é o que sobra. Curiosamente, a emigração constroi também um terceiro espaço linguístico, ainda mais étero que o outro, bem mais emocional, muito menos delineado. Palavras e frases transportas para outra língua, vividas com outro sentimento, usadas de acordo com novas vivências. Passagens muito mais benjaminianas do que o Walterzinho alguma vez sonhou.
Resumindo, a matemática continua longe de todas as realidades sentidas e o espaço de intersecção dos conjuntos não é na vida o que pertence simultâneamente aos dois conjuntos. É só virar na esquina!
Há um espaço, no fim do mundo à esquerda, bem no meio de um coração emigrante, que está vazio de conteúdo, vazio de simultâneidade, vazio.
Uma das três portuguesas, a que vive sem vida, aprendeu a muito custo que a terceira dimensão não existe. O volume não existe, o peso não existe, a distância não ocupa espaço. A vida é um filme, uma foto, simplesmente bidimensional. Sem mariquices.
E a sociologia é uma treta.
sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte, ...ainda que doa o mundo,
a alegria
Herberto Helder, OFÍCIO CANTANTE
A razão humana tem este destino singular, numa parte dos seus conhecimentos, de sucumbir ao peso de certas questões que não pode evitar. Com efeito, tais questões impõem-se à razão devido à sua mesma natureza, mas ela não pode responder-lhes porque de todo ultrapassam a sua capacidade.
Immanuel Kant, in 'Prolegómenos'
A sucumbir, também eu, ao peso de certas questões viro-me para aqui. É mesmo aquela história da pescadinha de rabo na boca.
E se para Kant o caminho adiante era a metafísica, eu não sei onde pegar na metafísica para deixar de ser pescada. Vou, mas vou como e quando? E se tudo isto ultrapassa a minha capacidade entrego a Deus? Que devo fazer? Na aula revisitada do Nuno Ferro questionava ele "devo perguntar o que devo fazer?"
a minha vida dos últimos 20 anos, contada em 2 minutos
e vá lá... de uma forma até divertida ;)
sinceramente: também estou a precisar imenso de uma bica!
diziam que agosto era o mês das colheitas
com os campos de cevada preguiçosamente embalados na luz do entardecer.
mas o que chegou primeiro foi setembro.
e setembro durou anos.
repetidamente
a colheita da minha vida
era o apanhar das missangas caídas do colar da tua
o pulso fechado a fugir de esquinas e tiros
a saudade imensa de olhares tristes, mas quentes.
setembro durou anos.
e agosto acabou por vir como estava prometido
explodindo e barafustando pelos campos
como em áfrica e no fim do mundo.
e eu farta
de segurar as pontas todas deste mundo redondo
e das vidas nele enterradas, quando o sol ainda vai alto
e o outono promete o que não traz.
hoje, é a primeira vez que sinto a vossa falta
sem nada mais além da falta que vocês me fazem. ambos.
no calendário
agosto e setembro deixaram de existir.
o que há são os dias
em que volto a ser filha.
I thought I just wanted to pass;
Good grades were all I cared for.
My college made me take the class
More stuff for me to ignore!
But then I found out that
His theories weren't so bad:
Labor and class combat,
What a very clever man!
CHORUS
I read some Marx, and I liked it;
The friend of the proletariat.
I read some Marx, just to try it;
Hope Adam Smith don't mind it!
It felt so wrong,
It felt so right;
Men of the working class, unite!
I read some Marx, and I liked it;
I liked it!
There is a spectre hanging o'er
The face of Europe!
'Tis communism, and it's more
Than just a social hiccup.
A time will come soon when
The masses rise as one
To carve out their place in
The brand new poetry to come!
CHORUS
Marx is the man, he's working for you;
The bourgeoisie, they just ain't your crew.
Alienation of labor is bad,
Commodification is not a good fad.
The capitalists are greedy you see;
A shorter workday, now that's what we need!
I'm reading some Marx, and I'm liking it;
Rise up now, proletariat!